ANTEVEJO
UM FUTURO SOMBRIO PARA OS NOVOS MÉDICOS!
Infelizmente,
é pura realidade sem conotação pessimista.
É
uma visão realista baseada em quarenta e um anos de militância médica, tendo
vivido as mais variadas fases da evolução da Medicina, participado de
atividades políticas acadêmicas em grêmios de classe, Diretório Acadêmico
da Faculdade Federal de Medicina de Curitiba Paraná, Diretório Central dos
Estudantes (abrangendo todas as Faculdades da Universidade Federal do Paraná),
movimentos grevistas contra intercâmbios educacionais internacionais
prejudiciais aos estudantes brasileiros de Medicina, Diretoria da CEU (Casa do
Estudante Universitário- Curitiba-Paraná). A São Paulo, cheguei em 1963 para
cursar minha Residência em Cirurgia Geral na Santa Casa de São Paulo, onde
assisti ao nascimento da atual Faculdade de Medicina, residência em Angiologia
e Cirurgia Vascular na mesma Santa Casa, Estagiário em Angiologia e Cirurgia
Vascular no Hospital das Clínicas da USP, acabando por ficar, definitivamente,
nesta cidade maravilhosa de São Paulo que “amo de paixão”, a quem rendo um
preito de gratidão na comemoração dos seus 450 anos de existência, assim
como a querida Curitiba, que me acolheu por seis anos de curso médico.
Até
a década de 70, exercer a Medicina dependia de se ter vocação, cursar uma boa
Faculdade, gostar de recuperar a saúde do próximo, porque, nas grandes
cidades, tinha-se um médico para cada 1000 habitantes, e, apesar dessa
facilidade, minha geração, na juventude, lutou, reivindicou, não aceitou
opressão, impôs seus direitos.
Ainda
nas décadas de 70 e 80, o mercado para a prática da Medicina, quer no consultório
particular, quer no emprego, foi fácil, com oferta maior que a procura. As
poucas firmas intermediadoras da assistência médica tinham uma postura Ética
que valorizava o procedimento médico com uma remuneração atraente, bem próxima
do valor dos honorários particulares. O médico tinha uma renda capaz de
permitir-lhe, com certa folga, adquirir seu automóvel de bom nível, sua casa
própria, freqüentar congressos, jornadas, etc. sem se onerar, podendo curtir
suas férias programadas, sobrando renda para aplicação financeira.
Entretanto, os médicos não perceberam o que estaria por acontecer,
extraprofissionalmente, por ter suas atenções voltadas para a prática médica,
e o “presente de grego” (planos destorcidos de assistência médica) foi
gradual e sorrateiramente ofertado e aceito por usuários e
médicos.
Por
isso, meus colegas de São Paulo e de todo meu amado Brasil, quem fala é uma
pessoa que já viveu bastante os mais variados tipos de acontecimentos nessas
quatro décadas de profissão médica. Falo com a humildade que me é peculiar,
por assim me sentir bem, mas falo com realismo “nu e cru”, porque, fantasia
é bom para a infância, mas ilude o adulto.
Da
década 80/90 para cá, com a “cegueira” das autoridades não querendo
enxergar os malefícios futuros, permitindo a criação indiscriminada de novos
cursos de medicina, gerando aumento do número de médicos, suplantando a
necessidade do mercado nas grandes cidades em que se concentram a falta de
regulamentação para os novos planos de saúde, além de permitirem os abusos
dos antigos, os planos passaram a explorar essa grande “mina de ouro”. Teve
início imperceptível, lenta e progressivamente, a dificuldade para o exercício
médico. O valor da mensalidade dos planos aumentou ( 240% em 12 anos), ao contrário
dos honorários médicos que decresceu (de R$70,00 para R$20,00). E já tem
plano seduzindo médicos a aceitarem o valor de R$10,00 por consulta compensando
com o aumento do número de pacientes atendidos, graças aos contratos globais
aceitos por muitos médicos. E o SUS, hoje, paga R$5,00 a consulta. E, a proporção
de número de habitantes por médico veio diminuindo, que, hoje, é de 250, nas
grandes cidades, constituindo-se em mais um grande complicador.
Fiz
parte, também, do Departamento de Defesa Profissional da SBACV-NACIONAL na gestão
97/99, e também da Regional de São Paulo, gestão 2002/2003, e agora, indicado
para a gestão 2004/2005. Participei, assiduamente, de todos as reuniões e
assembléias, sobre defesa Profissional, promovidas pela APM, AMB, CREMESP,
SOCIEDADE DE ESPECIALIDADES, com pequenas conquistas contra o GRANDE PODER ECONÔMICO
DOS PLANOS, por ainda não termos encontrado uma Estratégia capaz de vencer a
Injustiça, praticada por eles, contra a Medicina.
Além,
e apesar de tudo isso, cuido bem dos meus clientes, de minha família, de minha
saúde, curto meus parentes e meus amigos, meus hobbies e Oro a Deus, atitudes
normais de um homem comum, porém, sinto-me um “Dom Quixote de La Mancha”,
com os artigos que escrevo.
Portanto,
o aumento do número de médicos (vítimas do “sistema”) mal formados por
escolas despreparadas, estimula aos planos, a dispensarem o contratado, sem
justa causa, só porque pede um exame a mais a um paciente, ou indica uma
cirurgia em desacordo com a programação econômica deles. Contratam-se os médicos
dessas “escolas”, os quais ficam em fila de espera quando aquele colega é
descredenciado, oferecendo-se a trabalhar pela metade do preço, jogando a Ética
na lata do lixo, presenteando substancialmente os planos.
O
forte lobby montado no Congresso pelos planos de saúde, manipulando as Leis ao
favor deles, garante-lhes os R$29.000.000.000,00 (vinte e nove bilhões de Reais
mesmo) de lucro anual.
A
falta de punição dos graves erros cometidos pelos planos de saúde, que são
muitos, evitam-lhes prejuízos.
Uma
CPI do Congresso Nacional apurando inúmeras irregularidades praticadas pelos
planos de saúde, sem receber a mínima atenção do Governo Federal, acabando
em “pizza”.
Um
SUS que explora vergonhosamente o médico e os Hospitais.
Somando
todos esses desmandos protegidos pelas autoridades, e o desinteresse da maioria,
quase absoluta, dos médicos, particularmente entre os bem jovens (dominados por
uma apatia assustadora), pela UNIÃO DA CLASSE (PRINCIPAL
ARMA NESSA LUTA DESIGUAL), que outra visão se pode ter do futuro dos novos médicos, que não
seja uma visão SOMBRIA!
Desculpem-me:
Isto é absolutamente real!
Rubem
Rino --
Diretor
de Defesa Profissional da SBACV-SÃO PAULO