Boletim Informativo

Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular

Boletim Informativo Regional São Paulo
Biênio 2000/2001 - no. 03 – Abril/00

O Boletim Informativo é publicação oficial da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular Regional São Paulo.

Nesta edição
Reportagem: A Cirurgia Vascular no Novo Currículo
Editorial
Journal Club
Notas
Entrevista: Embolia pulmonar
Reunião Científica
- Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Ipiranga
- Trabalho Científico
Artigo: Reciclar é preciso
Agenda

Reportagem
A Cirurgia Vascular no Novo Currículo

O ensino da Cirurgia Vascular nos cursos de graduação ainda é incipiente,
mas já há propostas de avanço
Em discussão este mês resolvemos abordar a atual situação do ensino da cirurgia vascular nos cursos de graduação. Para avaliar esta realidade, o Boletim foi ouvir dois profissionais atuantes em escolas diferentes. O Prof. Dr. Pedro Puech-Leão, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e o Prof. Dr. Fausto Miranda, da Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
"Na USP, e acredito que seja assim também em outras faculdades, a carga horária para o ensino da cirurgia vascular é muito pequena porque não é determinada com base na incidência das doenças na população. O currículo é feito com base na política ou filosofias gerais de ensino, que na maioria são modismos e cada um aproveita para puxar a sardinha para sua brasa, ou seja, estão mais presentes no currículo aquelas sociedades melhor representadas nas Comissões de Ensino", ele argumenta.
Para se adequar a formação médica à realidade, seria preciso ir aos postos de saúde, pronto socorros, clínicas médicas e hospitais para investigar quais são as principais doenças e em que proporção elas atingem a população. A partir daí o médico deveria ser preparado para lidar com o que mais freqüentemente encontrar no seu dia-a-dia. Mas, como se sabe, não é o que acontece.
O Prof. Dr. Puech-Leão observa que houve uma época em que a grande preocupação das universidades era formar futuros especialistas. Isso ocorreu durante o boom tecnológico iniciado na década de 50, na era Juscelino. Depois, foi a vez de formar médicos generalistas, nas décadas de 70 e 80. "Essas visões coincidem com os contextos político-econômicos de cada período. Quando se pensava em formar médicos generalistas, estava na moda ser comunista e se pensava naqueles que iam trabalhar nas pequenas cidades no interior do norte e nordeste." O ideal, ele considera, é que haja os dois tipos de formação, em faculdades diferentes, dependendo da vocação de cada escola.
Na sua opinião, toda a noção de doença vascular deveria ser ensinada pelas cadeiras de propedêutica e de clínica médica. "Nos países do primeiro mundo o diagnóstico e até o tratamento clínico inicial dessas doenças são feitos pelo clínico geral." O cirurgião vascular só é chamado para definir a indicação de uma intervenção cirúrgica e quando esta intervenção é necessária. Mas no Brasil estas cadeiras têm falhado grosseiramente em ensinar doenças vasculares." Ele acredita que se estas cadeiras fizessem bem este trabalho, a pequena carga horária que cabe à cirurgia vascular na grade curricular, aí sim, seria suficiente para sanar as necessidades da formação.
Por isso mesmo, ainda que seja cedo para avaliar seus resultados, é bem vinda a reorientação de currículo iniciada em 1995 na Unifesp. O objetivo, segundo o Dr. Fausto Miranda é torná-lo mais objetivo no sentido de atender as necessidades do país. Por isto a formação pende para o caráter generalista e o currículo visa agregar as informações. Já nos 3o. e 4o. anos o estudante aprende alguma coisa sobre cirurgia vascular e tem informações básicas que envolvem citologia, fisiologia, sistema e histologia. A cirurgia vascular não é vista isoladamente mas integrada com o ensino de doenças da mesma área. Num mesmo módulo estão, por exemplo, doenças vasculares, cardíacas, pulmonares.
O novo currículo também trouxe a vantagem de separar os alunos em grupos menores e, principalmente, de integrar e poder aprofundar mais as informações. "Agora o aluno tem um espaço maior para aprender sobre cirurgia vascular ao longo do ano e não só em duas ou três aulas estanques, em que era despejado todo o conteúdo", compara o Dr. Miranda.
Também a introdução do estudante à pesquisa científica pode agora ser feita de forma mais eficiente.
Neste novo currículo, cuja primeira turma iniciou em 1997, foi adicionado um currículo complementar, com disciplinas eletivas disponíveis a partir do segundo semestre o primeiro ano. São mais de 100 disciplinas. A racionalização da grade curricular também permitiu oferecer ao aluno um dia livre por semana, para ele se refazer da maratona de estudos. A boa surpresa tem sido a superlotação da biblioteca neste dia. Ou seja, muitos alunos estão aproveitando a janela para por em dia suas leituras.
No módulo de ética, outro possível avanço: "O estudante é apresentado de forma mais didática ao hospital." O contato aluno-hospital acontece mais cedo, não só no 6o. ano, e de forma mais freqüente, sob orientação específica para isto.
Também se pode dizer que a multidisciplinaridade, uma característica cada vez mais importante no atendimento médico atualmente tem muito a ganhar com essa nova forma de ensino.
Por enquanto, conforme analisa o Prof. Dr. Puech-Leão, o ensino na graduação, mesmo quando há uma preocupação generalista ainda se restringe às áreas da pediatria, ginecológica-obstétrica, cardíaco-pneumologista e de doenças infecciosas. Conhecimentos como a gastroenterologia e a cirurgia vascular ainda estão à margem. É por esta deficiência no ensino da graduação que o cirurgião vascular continua recebendo de seus colegas clínicos gerais ou de outras especialidades pacientes com diagnósticos tão desencontrados como dor ciática, neurite diabética, gota, artrites inespecíficas e inúmeras outras doenças que não têm nada a ver com cirurgia vascular.
Ele também sustenta a opinião - polêmica, como admite - que até alguns quadros que hoje são consensualmente encaminhados para o cirurgião vascular (como casos de tratamento inicial de úlcera de estase venosa) poderiam ser bem tratados por um clínico geral. Por isso, quando se pensa em reformulação de currículo, na sua opinião é preciso levantar a discussão, primeiramente, de qual é o campo de competência do cirurgião vascular nos tratamentos das doenças vasculares e, segundo, questionar com que eficiência a propedêutica e a clínica médica podem ensinar. Enquanto isto não acontece, a alternativa é aumentar a carga horária da cirurgia vascular para que se possa ensinar tudo, até mesmo a diferenciar uma dor ciática de uma isquemia.
Da redação


Editorial
Um dos principais objetivos da Sociedade é cuidar para que seus associados mantenham-se sempre informados sobre as novidades e discussões acerca do diagnóstico e tratamentos das doenças vasculares.
Mas nossa maior dificuldade para que isto de fato aconteça é que muitos dos profissionais que militam na área de cirurgia vascular - inclusive alguns professores - estão totalmente afastados da Sociedade, por acharem que esta é uma clã onde se privilegiam "panelinhas". Não percebem que a forma mais eficaz de combater isto é se aproximar da Sociedade de forma participativa e discutir todos os assuntos que sejam de seu interesse.
As reuniões ainda são consideradas chatas, um verdadeiro ônus, pois faz com que o profissional tenha de se deslocar de seu local de trabalho, roubando-lhe um precioso tempo em que poderia estar em casa, com sua família. Mas é preciso que percebam: é este horário dedicado à Sociedade, em suas reuniões mensais, que faz com que ela cresça. É este o mecanismo ideal para promover o intercâmbio e cuidar dos interesses de toda a classe profissional. É também a oportunidade de informar aos médicos mais jovens sobre a evolução no diagnóstico e tratamento das doenças vasculares.
Por isso mesmo, os não-sócios e os sócios menos ativos devem ser estimulados a comparecer às reuniões e a adotar uma postura mais atuante.
Talvez seja o momento de perguntar por que a falta de participação ainda é tão generalizada. Talvez estas pessoas pensem que a participação não lhes traz nenhum benefício. Só que este benefício existe, sim. Nem sempre é imediato ou financeiro mas é o que traz respaldo para tudo o que a Sociedade faz almejando o bem e a evolução profissional de seus associados.
Portanto, participem das reuniões, visitem nosso site, escrevam para o Boletim, mandem suas mensagens por e-mail, dêem suas sugestões. Afinal, é só ouvindo a sua opinião que a Sociedade pode crescer.
Não adianta só falar mal de políticos como o prefeito Celso Pitta ou reclamar da política do país. Seu poder de mudar a situação está ao seu alcance e começa com a simples possibilidade de tomar parte do grupo profissional que o representa.
Quer mais uma dica de como participar? Envie seu resumo de trabalho para apresentação e discussão nas próximas reuniões científicas. Os trabalhos devem ser enviados até o dia 15 do mês anterior ao da publicação. Além dos resumos, você pode publicar também artigos no Boletim. Encaminhe-os para a secretaria da SBACV ou para o e-mail sbacv@shaman.com.br.


Journal Club
A partir deste número, os Resumos dos Artigos serão seguidos de um breve comentário feito por quem leu e fez o Sumário dos mesmos. Assim, acreditamos poder estimular a discussão e provocar polêmica sobre os assuntos abordados.
Henrique Jorge Guedes Neto
Diretor Científico
Nilo Izukawa
Vice-Diretor Científico


Simultaneous Carotid Endarterectomy and Coronary Bypass
Grafting in 313 patients
Evangelopoulos N; Trenz MT; Beckman A; Krian A.
Cardiovascular Surgery, vol. 8. No. 1, pg 31-40, 2000
Casuística:
- 1990-1997 = 18.050 pacientes submetidos a revascularização miocárdica
- 313 pacientes (1,73%) foram submetidos simultaneamente a endarterectomia de carótida
- Indicação do procedimento combinado = Sintomas de AIT com placas ulceradas ou estenose de 80% ou mais em uma ou ambas as carótidas internas
Resultados:
- 10 pacientes (3,2%) - IM Intraoperatório
- 7 pacientes (2,2%) - AVC intraoperatório
- 1 paciente (0,3%) AVC tardio
- 8 pacientes (2,6%) - óbito
Conclusão:
O risco de IM, AVC ou óbito não foi significativamente diferente quando da associação das duas cirurgias.
Comentador: Henrique Jorge Guedes Neto
Veja resumo do mês passado (Coronary Bypass and Carotid...) e compare os dois artigos.
O assunto realmente é polêmico e acredito que os casos devam ser individualizados.


Estado Atual da Angiogênese no Tratamento da Isquemia Arterial das Extremidades Inferiores
Jimenes Carcano J; Cura F;
"Patologia Vascular", vol. V, 1999, p 24-27.
O artigo relata a experiência do uso de fatores de crescimento angiogênicos (Polipetídeos), em humanos, como opção de tratamento na isquemia dos membros inferiores, diminuindo a taxa de amputação.
Os fatores de crescimento promovem proliferação e migração de células endoteliais e musculares lisas, permitindo formação de uma nova circulação colateral.
Os primeiros autores a demonstrarem resultados foram Isner et al (1996), com uso do fator de crescimento endotelial VEGT 165, em 7 membros inferiores de 6 pacientes com Doença de Buerger, obtendo cura em lesões ulceradas, melhora da dor noturna e aumento do índice tornozelo braço na maioria dos pacientes. Obteve neo-vascularização em todos os pacientes, detectados por ressonância magnética e angiografia.
Comentador: Ricardo Thomaz Tebaldi - Residente do Serviço de Cirurgia Vascular e Angiologia da S. Casa de São Paulo
Será este o futuro? Aguardamos, com atenção, novos artigos.


A Prospective Controlled Study of the Efficacy of Shot-term
Anticoagulation Therapy with Deep Vein Thrombosis
of the Lower Extremity
AbuRahma AF, MD; Sticker DL, MD e Robinson PA, MD
Journal of Vascular Surgery, oct. 1998, vol. 26, no. 4: 630-637.
Nesse estudo prospectivo os autores propuseram comparar os resultados da terapêutica anticoagulante de curta duração versus o tratamento convencional com anticoagulantes por um longo período em pacientes com primeiro episódio de TVP dos membros inferiores.
Foram acompanhados 105 pacientes por um tempo médio de 59 meses, divididos em dois grupos com idade e fatores de risco semelhantes. No grupo A foi realizado heparina por 3-5 dias complementado com warfarin por 3 meses e o grupo B o tratamento de curta duração: 2-3 dias de heparina seguido de 6 semanas de warfarin. Controle com duplex de MMII 6 sem., 3m, 6m. Apresentaram resultados similares ao tratamento e as complicações (TEP, Sind. pós-trombótica e sangramentos). Concluindo-se que a terapêutica de curta duração é tão efetiva quanto a de longa duração, sendo menos onerosa para os pacientes.
Marcos Eduardo Ramos Figueira - Residente do 3º ano de Cirurgia Vascular da S. Casa de São Paulo


Notas:

Homenagem ao amigo
A lembrança mais remota era a do professor "legal" da vascular, na época em que eu era doutorando. A amizade e afinidade começaram na residência cirúrgica, onde os procedimentos mais complexos eram contornados com manobras hábeis e resultados satisfatórios. Sempre havia uma maneira mais adequada de fazer a operação, por mais simples que fosse. O bom humor estava sempre presente, e era uma época em que fazer uma boa medicina era prioritária a ganhar dinheiro. Não havia período de trabalho, era dedicação integral. No ambulatório, sempre havia uma maneira de tratar a úlcera de perna que não estava no livro. Era a arte de aliviar a dor e a preocupação de perda do membro. Foi uma época de muito aprendizado. Ficou gravado em minha mente o convite para participar da colocação de enxerto de pele em uma úlcera de perna, procedimento não rotineiramente praticado e que eu só conhecia pelos tratados médicos. Organizei-me para ir ao hospital, saindo apressadamente da Escola Paulista de Medicina, sem almoçar. Apesar disso, não consegui chegar no horário combinado, pois, enganei-me com o endereço e entrada do hospital. Nesta época, o atraso do segundo auxiliar era uma falta muito grave. E ao entrar no centro cirúrgico estava pensando na melhor desculpa para justifica-lo. Na sala, Dr. Ciscato ergue a cabeça e diz "Faustito, entra em campo para ver como se faz o enxerto de pele". Toda preocupação passou, relaxamento total e todos os macetes cirúrgicos foram passados com a maior naturalidade. Nestes anos todos de convivência, não consegui encontrar quem não o estimasse. Sorriso sempre aberto, sempre de bom humor, animado para qualquer discussão clínica ou cirúrgica e com uma gama imensa de alternativas para os diferentes problemas. Vai ficar um grande vazio nas reuniões clínicas de quinta-feira à tarde da disciplina de cirurgia vascular da EPM. Sentava-me ao seu lado, ele sempre cochichava as hipóteses diagnósticas e as condutas dos casos discutidos. Era uma reunião quase particular. Antes de seu início sempre tinha um caso para contar ou uma piada nova que ouvira do anestesista. Esse é o amigo que perdi no último dia 15 de março, o Prof. Dr. José Geraldo Ciscato. Sugestões, conselhos, orientações e apoio não faltaram. E foram de grande ajuda para minha carreira. Obrigado, meu amigo, pela experiência de vida.
Fausto Miranda Jr.
Titular SBACV


Novo vice-presidente
Durante o 24o. Congresso Mundial da Internacional Society for Cardiovascular Surgery, realizado em Melbourne, Austrália, em Assembléia Geral, foi eleita a nova Diretoria. O Dr. Antonio Carlos Simi, de São Paulo, foi eleito Vice-Presidente mundial da ISCVS e membro do Conselho Executivo. Na condição de Conselheiro, estará participando da reunião do Conselho, em Toronto, durante o próximo NA-ISCVS - Joint Annual Meeting, no mês de junho próximo, representando a América Latina. PARABÉNS AO DR. SIMI E À REGIONAL DE SÃO PAULO POR POSSUIR UM MEMBRO DE DESTAQUE INTERNACIONAL.


Entrevista :
Embolia pulmonar
A Embolia Pulmonar é uma doença ainda muito preocupante, porque embora já existam bons métodos diagnósticos e de tratamento da doença, uma quantidade significativa de casos só são identificados após o óbito do paciente. Para falar sobre o assunto, convidamos o Prof. Dr. Francisco Humberto Maffei, da Unesp.
Boletim - Sabemos que a embolia pulmonar é uma causa de morte importante para pacientes hospitalizados. A melhor forma de tratamento é a profilaxia?
Dr. Francisco Humberto Maffei - Sem dúvida alguma, como para todas as doenças, o melhor tratamento para a EP é a profilaxia. Porém nos casos em que esta não foi feita, ou se apesar da profilaxia um quadro de EP se instalou, ou em casos em que é impossível a profilaxia porocorrer EP espontânea, deve ser realizado o melhor tratamento possível para evitar um desenlace fatal.
Boletim - Que procedimentos profiláticos podem ser tomados?
Dr. Maffei - Nos casos em que já existe TVP, tratamento com heparina e AVK. Se a trombose for extensa e existe contra-indicação para o tratamento anticoagulante, deve-se estudar a necessidade de colocação de um filtro de veia cava.
Se ainda não existe TVP e o paciente pertencer a um grupo de risco de TVP e for submetido a uma cirurgia, é recomendada a profilaxia. Em casos de trauma ou parto deve ser feita profilaxia primária da TVP.
Boletim - Sabe-se também que a maioria dos diagnósticos não são feitos a tempo de se tomar qualquer providência e, em cerca de 2/3 dos casos a embolia só é identificada após a morte. É possível definir grupos de risco e tomar algum tipo de atitude preventiva?
Dr. Maffei - Já foram bem definidos os grupos de risco para TVP e EP em várias conferências de consenso sobre profilaxia dessas afecções. De acordo com os fatores de risco que apresentam, os pacientes são classificados como de baixo, moderado e alto risco de TVP. Para todos os pacientes classificados nos grupos de alto e moderado risco, algum tipo de profilaxia deve ser instituído.
Boletim - Quando se fala em cirurgia, são os pacientes submetidos a que tipo de cirurgia os que correm maior risco?
Dr. Maffei - As grandes cirurgias abdominais e pélvicas, principalmente em pacientes com câncer e as grandes cirurgias ortopédicas, como colocação de próteses de quadril e joelho, são as operações de maior risco para o tromboembolismo venoso.
Boletim - Para pacientes de com varizes nos membros inferiores, que tipo de orientação prévia deve ser dada?
Dr. Maffei - A incidência de TVP em pacientes operados de varizes é baixa, portanto para maioria dos doentes, basta a recomendação de mobilização das pernas e pés e deambulação, a mais precoce possível. Para pacientes com história anterior de TVP ou EP, sabidamente portadores de trombofilia, ou em vigência de tratamento hormonal, seja como anticoncepcional seja como de reposição, deve ser instituída profilaxia com heparina em mini-doses (HMD) ou heparina de baixo peso molecular (HBPM).
Boletim - Nas cirurgias ortopédicas, em que caso usar terapêuticas como a heparina, a heparina de baixo peso molecular e os meio mecânicos como a meia elástica e compressões mecânicas intermitentes?
Dr. Maffei - Há evidências que no caso das cirurgias ortopédicas as HBPM são mais efetivas que as MDH, sendo portanto de escolha nesses casos. A compressão pneumática intermitente também tem se mostrado eficiente nesses casos. A efetividade das meias de compressão elástica anti-trombóticas não estão muito claras; em muitos países são associadas aos anticoagulantes.
Boletim - Existe alguma grande diferença entre heparina e heparina de baixo peso molecular? Quais as indicações para cada uma?
Dr. Maffei - Em cirurgia geral e pacientes clínicos, o efeito e a segurança das duas é similar: as HBPM são mais cômodas porque exigem uma só injeção por dia, em compensação são muito mais caras. Em pacientes de maior risco, como os de cirurgia ortopédica e traumas, principalmente trauma de coluna, as HBPM parecem ser mais efetivas.
Boletim - Quando a suspeita diagnóstica existe, quais os métodos de investigação e de tratamento mais freqüentemente escolhidos?
Dr. Maffei - Para a EP, a cintilografia pulmonar de perfusão e ventilação, que pode ser complementada por tomografia ou arteriografia pulmonar nos casos mais graves ou duvidosos. O tratamento se constitui para a maioria dos casos, quando não existe comprometimento hemodinâmico, tratamento anticoagulante com heparina e AVK. Nos casos mais graves, com importante comprometimento hemodinâmico, usam-se fibrinolíticos, seguidos de heparina e antivitamina (AVK).
Boletim - Há consenso sobre o uso de fibrinolítico para tratamento?
Dr. Maffei - Na EP, nos casos de alteração hemodinâmica importante o uso de fibrinolítico já é consenso. Nos demais casos a principal indicação é ainda o tratamento anticoagulante.
Boletim - Qual o procedimento indicado na presença de uma trombose venosa?
Dr. Maffei - Para a confirmação diagnóstica, mapeamento dúplex, utilizando-se a flebografia nos casos duvidosos. Na grande maioria dos casos, o tratamento deve ser iniciado com heparina ou heparina de baixo peso molecular, mantendo-se depois o tratamento com AVK, por tempo que depende da causa da trombose e da existência de recidivas ou trombofilia. Na TVP não existe consenso sobre o uso de fibrinolíticos. Aguarda-se maior experiência com fibrinolíticos colocados no próprio trombo por meio de catéteres multiperfurados nos casos mais graves. Para estes também, eventualmente, está indicada a trombectomia.


Reunião científica
A próxima reunião acontecerá na Escola Paulista de Medicina,
à R. Napoleão de Barros, 737 - 15º andar


Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Ipiranga
O Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Ipiranga teve início em 1988, quando o hospital começou a ser gerido pelo Estado, deixando de ser responsabilidade do INAMPS. Sob a liderança do Dr. José Mário Reis, juntamente com outros grandes colaboradores que infelizmente hoje não trabalham mais conosco (Dra. Ana Terezinha Guillaumon, Dr. Fábio Monastero, Dr. Aníbal Rebello), iniciou-se a Residência Médica em Cirurgia Vascular. Desde então, nosso Serviço vem crescendo, tendo formado 16 médicos cirurgiões vasculares, e cerca de 100 médicos residentes do serviço de cirurgia geral passaram um período conosco, durante sua fase de formação. Nesse tempo todo, temos experimentado vertiginosas mudanças na abordagem diagnóstica e terapêutica do doente vascular, e procuramos estar up to date com os recentes avanços, o que não tem sido fácil, uma vez que poucas especialidades tiveram tantos avanços em tão pouco tempo. Assim que, apesar das dificuldades que todo serviço público enfrenta no Brasil, e não querendo fazer frente aos serviços universitários, que têm uma vocação diferente, mas espelhando-se neles, temos unido esforços, procurando fazer uma Residência Médica cada vez mais preocupada com a boa formação médica, quiçá humanística, dos nossos médicos residentes.
Impotência sexual masculina - O que o cirurgião vascular tem com isso?
Muitos homens experimentam problemas de ereção durante a vida, que podem ter um efeito profundo sobre o paciente e sua parceira. A disfunção erétil, definida como a incapacidade de se obter ou manter a ereção peniana adequada para o ato sexual, termo mais apropriado para a denominada impotência sexual, por não trazer uma conotação tão psicologicamente negativa, é comum, aumenta em prevalência com a idade, e é fonte de muito estresse emocional. O Massachusetts Male Aging Study apontou para algum grau de disfunção erétil em 52% dos homens com idade entre 40 e 70 anos. É causada por uma ampla variedade de fatores orgânicos, psicológicos, interpessoais e farmacológicos. Os fatores psicológicos podem levar a ansiedade de desempenho, perda de auto-estima, podendo desencadear um círculo vicioso. Nestes casos, a etiologia é denominada psicogênica, embora pequena parte dos pacientes que procuram tratamento apresentem causas orgânicas, tais como doença vascular, problemas neurológicos e endocrinológicos.
A causa orgânica mais comum da disfunção erétil é a de etiologia vascular. Desde 1940, Leriche apontou para a coexistência da disfunção erétil, claudicação intermitente e doença aterosclerótica do setor aorto-ilíaco. Desde então, a disfunção erétil não teve a devida atenção por parte dos pesquisadores, seja porque a sexualidade fosse um tabu, seja porque fosse considerada de menor importância para a saúde do indivíduo, proporcionando que pessoas com formação duvidosa e interesses escusos começassem a atuar nesta área de forma não séria, para se dizer o mínimo.
Assim que a sexualidade masculina começou a ser campo de experimentação para várias terapias, as mais variadas possíveis, mas ao invés de começarem por estudos da fisiologia da ereção, partiu-se para o seu tratamento, e somente após várias e várias tentativas fúteis chegaram a algum resultado mais palpável. Assim foi, por exemplo, com a dita fuga venosa. Quantos doentes não foram submetidos a ligadura de veias penianas com o intuito de represar o sangue no pênis e proporcionar ereção!? Hoje sabemos dos resultados precários destas operações. O mecanismo veno-oclusivo não está nas veias penianas ou válvulas que represem o sangue, e sim na distensão do corpo cavernoso e compressão das veias emissárias contra a túnica albugínea, promovendo a veno-oclusão. E as revascularizações distais, que muitas vezes demandavam horas de procedimento cirúrgico especializado (micro-cirúrgico), mas que ao final, apesar da perviedade das anastomoses, não promoviam ereções. Por insuficiência do corpo cavernoso! Sem dizer dos inúmeros pacientes nos quais uma prótese peniana foi implantada, quando um distúrbio emocional era a causa básica da disfunção. A indicação terapêutica seria psicoterápica e tais indivíduos foram submetidos a um tratamento não adequado.
Apesar de tudo, antes tarde do que nunca. A partir da década passada, pesquisadores sérios, em instituições sérias, começaram a desvendar os mecanismos que levam à disfunção erétil, e só então terapêuticas com base na fisiologia da ereção foram instituídas. Métodos diagnósticos como o ecodoppler e angiografia digital foram incorporados na prática clínica. A radiologia intervencionista, com seu vertiginoso desenvolvimento começou a proporcionar terapêuticas outrora impensáveis, com invasividade mínima. E a indústria farmacêutica, vendo neste segmento de doentes uma grande oportunidade de negócios, investiu pesadamente em pesquisa de novos fármacos. E, realmente, muitos problemas de disfunção erétil foram resolvidos, mormente aqueles com disfunção menor. Entretanto, há uma parcela da população em que tais medicamentos surtem pouco ou nenhum efeito. Principalmente doentes arteroscleróticos, com doenças do setor aorto-ilíaco-pudendo. E é aqui que queremos enfatizar a participação do Cirurgião Vascular. Até quando estaremos preocupados em apenas salvar pernas e aliviar a claudicação, relegando a sexualidade a um plano inferior?
A disfunção erétil pode ser de muita importância para o seu paciente, que não a referirá se não for argüido a respeito. E nós temos condições de diagnosticar e tratar de forma competente muitos destes pacientes. Isto posto, achamos que o cirurgião vascular tem tudo a ver com isto!!!


Trabalhos científicos
Avaliação Histopatológica no Epitélio Intestinal Submetido a
Diferentes Tempos de Isquemia e Reperfusão Programada de 24 horas
Autor : Murillo Antonio Couto
Orientadora : Profª Drª Ana Terezinha Guillaumon
Tese de doutorado apresentada ao curso de Pós-Graduação em Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de doutor em cirurgia. Área de concentração: cirurgia.
Resumo: A isquemia e a reperfusão podem acarretar diversas alterações histopatológicas, bioquímicas e inflamatórias no intestino. No presente estudo objetivamos observar as alterações que ocorrem no epitélio intestinal de ratos, quando submetidos à isquemia de tempos variados e reperfusão programada de 24 horas. O experimento, realizado no intestino de ratos submetidos a diferentes tempos de isquemia, é assim discriminado; Grupo I - controle, Grupo II- isquemia 10 minutos, Grupo III - isquemia 20 minutos, Grupo IV- isquemia de 30 minutos, Grupo V- isquemia 40 minutos e Grupo VI- isquemia 60 minutos.
Todos os grupos foram submetidos ao mesmo tempo de reperfusão (24 horas), realizando-se ressecção do intestino para análise histopatológica. Para avaliação das possíveis diferenças entre os grupos previamente definidos para os variáveis comprimentos do vilo, largura do vilo e índice mitótico, usamos o teste não paramétrico para médias de KRUSKAL-WALLIS, ressaltando-se que, quando houve significância estatística, completamos este teste com o teste de comparações múltiplas. O estudo demonstrou que, do ponto de vista qualitativo o epitélio intestinal se encontra regenerado, ao ser submetido a diferentes tempos de isquemia e reperfusão de 24 horas. Entretanto, observamos que, ao se analisar a morfometria (análises quantitativas), considerando como parâmetro o comprimento e a largura do vilo bem como o índice mitótico,detectamos alterações significativas. Estas alterações caracterizam-se por uma diminuição do comprimento e aumento da largura do vilo à medida que o tempo de isquemia aumentava. Acrescente-se também que o índice mitótico apresentou aumento, após ter se iniciado a isquemia (sendo significativo grupo III em relação ao controle).

Artigo
Reciclar é preciso
Reciclagem profissional: esta é a proposta do próximo módulo "Atualização e Propedêutica Arterial" que acontece num sábado, dia 8 de abril, na sede da Associação Paulista de Medicina.
O curso tem como moderador o Prof. Emil Burihan, da Universidade Federal de São Paulo e estão programados os seguintes temas
1- Qual o real valor do exame físico no diagnóstico das arteriopatias? - Prof. Maria Del Carmem Janeiro Perez
2- Quando utilizar métodos diagnósticos não invasivos indiretos e diretos? - Dr. Paulo Guimarães
3- Arteriografia x duplex scan - Prof. Fausto Miranda Jr. e Dr. Lazlo J. Molnar
4- Angiorressonância magnética x tomografia computadorizada - Dr. Douglas Jorge Racy.
O Dr. José Carlos Baptista , secretário geral da Sociedade e responsável pela organização do curso esclarece que cursos de reciclagem médica como este fazem parte da cirurgia vascular. É a oportunidade de oferecer ao médico condições ideais para ele aprofundar o exercício de examinar, saber que exames utilizar para confirmar o diagnóstico e escolher a melhor conduta terapêutica. "A propedêutica é o mínimo que o cirurgião vascular tem de saber para conduzir um caso", ele afirma.
Atualmente, as novidades mais recentes na área dizem respeito ao diagnóstico não invasivo. A experiência dos médicos com estes métodos aumentou e hoje se dispõe de aparelhos e condições mais evoluídas para um bom diagnóstico. Com a angiorressonância magnética de última geração, por exemplo, se consegue observar os vasos internamente, eliminando o uso de catéteres e de contraste. A tomografia em 3D é outro avanço tecnológico que traz a possibilidade de se realizarem diagnósticos muito mais seguros.
O que o Dr. Baptista ressalta, entretanto, é que nada disso será de grande utilidade se o médico não for capaz um bom exame físico. E, apesar de o curso enfatizar a experiência com os novos recursos técnicos, sua tônica é fortalecer esta idéia. Afinal, nenhum recurso tecnológico substitui o médico e sua competência. "Chamamos a atenção para o valor do exame físico, pois é preciso, antes de mais nada, saber clínica muito bem."
Outro aspecto importante que ele lembra é quanto a freqüência do curso. Eles costumam Ter uma média de 100 participantes, o que é considerado bom, uma vez que no Estado de São Paulo existem pouco mais de 500 cirurgiões vasculares associados e um número semelhante de não-associados. E o curso pode ser ainda mais útil aos médicos não ligados à Sociedade, ou para aqueles que não têm encontrado tempo de participar de congressos e outros eventos importantes da área e nem mesmo de pesquisar sobre o assunto na Internet. Além disso, pode ser de grande contribuição aos interessados em tirar o título de especialista.
O curso tem sempre a duração de dois anos e a novidade para o próximo ano deverá ser sua regularidade. A intenção é programar aulas todos os meses, para que não se acumulem aulas.

Agenda
Reunião científica
A próxima reunião acontecerá na Escola Paulista de Medicina,
à R. Napoleão de Barros, 737 - 15º andar

Eventos nacionais
Curso Teórico Prático para Tratamento do Linfedema Periférico
Coordenador: Dr. Henrique Jorge Guedes
Elisa Eliana Helena G. Seixas
Tasvo Tulio Nogueira
data: 6 e 7 de maio
local: Fortune Residence Executive - R. Hadock Lobo, 804
tel.: (0__11) 853-9511 / 5594-1212
inscrições: Fenafito/Vinfito SP (0__11) 5078-7755
XV Encontro de Angiologia e Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro
data: 19 a 21 de maio
local: Centro de Convenções do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Rio de Janeiro/RJ
tel.: (0__21) 263-1625
fax: (0__21) 263-4884
III Encontro de Angiologia e Cirurgia Vascular
Data: 26 e 27 de maio
Local: Hotel Taiwan - Ribeirão Preto/SP
tel.: (0__11) 279-7626
34o. Congresso Brasileiro de Angiologia e Cirurgia Vascular
de 20 a 25 de outubro de 2000
local: Hotel Intern. Continental Rio - Rio de Janeiro/RJ
tel.: (0__21) 286-2846
fax: (0__21) 537-9134

Evento internacional
19o. Meeting of the International Union of Angiology
data: 05 de maio de 2000
local: Shent - Bélgica
tel.: +32 9 233-8660
fax: +32 9 233-8597
site: www.semico.belangiology
e-mail: angiology@semico.be

Participe:
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