Biênio 2000/2001 - no. 02 – Março/00
Editorial
Reportagem: residência médica.
Destaque da Tesouraria
Reunião Científica
Trabalhos Científicos
Artigo: A síndrome de Caramuru
Journal Club
Agenda
Editorial
A primeira reunião do ano 2000 contou com a
presença de cerca de 60 pessoas. Pela primeira
vez foi apresentado o trabalho de um Serviço,
no caso, o da PUC de Sorocaba/SP. Esta apresentação
mostrou, principalmente, que vários tipos de
cirurgia, apesar de serem muito discutidos em vários
congressos, ainda não são utilizados
na prática dos Serviços Universitários,
como é o caso de Sorocaba. Um exemplo é
a cirurgia de aneurisma toraco-abdominal.
Isto revela as diferenças regionais e ao mesmo
tempo mostra que aquilo que é considerado primordial
para a Escola Paulista de Medicina (Unifesp) ou para
a Faculdade de Medicina da USP talvez não seja
primordial para outros centros.
Mas podemos concluir que, se a pesquisa realizada
nestes centros estiver buscando soluções
para os pacientes que atende, com certeza estará
no caminho certo. Com isto, parabenizamos a PUC de
Sorocaba, porque é o que estão fazendo
lá: procurando atender o paciente.
Com relação ao curso da APM, informamos
que todos os detalhes deste curso devem estar disponíveis
no próximo boletim.
Comunicamos também a todos os associados que
continuamos recebendo os resumos para apresentação
e discussão nas próximas reuniões
científicas. Lembrem-se que até o dia
15 do mês anterior ao da publicação
os resumos devem ser enviados. Além dos resumos
de trabalhos, artigos também podem ser enviados
para publicação no Boletim. Encaminhe-os
para a secretaria da SBACV ou para o e-mail rosecampos@uol.com.br.
O Desafio da Residência Médica
Alcançar a excelência no preparo do profissional
é uma dos principais objetivos da residência
médica. E o papel desta Sociedade é
fundamental para que, pensando na formação
do cirurgião vascular, se alcance plenamente
este objetivo. Foi uma das importantes conclusões
a que se pôde chegar após entrevistas
com o Prof. Dr. Rui Barbosa, presidente da Comissão
Estadual de Residência Médica e Coordenador
Regional da Comissão Nacional de Residência
Médica, e com a Dra. Ana Terezinha Guillaumon,
Profa. Dra. no Departamento de Cirurgia da Faculdade
de Ciências Médicas da Unicamp.
Coube ao MEC - Ministério da Educação
e Cultura regulamentar a residência médica,
que se constitui em fator primordial na formação
do médico. O decreto 80.281, de setembro de
1977, é uma lei específica sobre o tema
e criou, ao mesmo tempo, a Comissão Nacional
de Residência Médica. Hoje estão
previstas a criação de bolsa de estudos,
a definição da carga horária
e dos programas de residência, os direitos do
residente. Uma resolução, de 1983, tratou
de estabelecer os requisitos mínimos dos vários
programas de residência médica. É
o que garante uma certa padronização
desses programas.
Daquela época para cá, entretanto, muita
coisa mudou e evoluiu nos procedimentos e instrumentalização
utilizados pela cirurgia vascular. Por isso é
tão oportuna a parceria que comissão
vem se empenhando em fazer com a Sociedade, para definir
o novo programa médico da residência.
"Surgiu uma grande quantidade de novos instrumentos
e recursos. E também é preciso definir
quais as novas especialidades. Enquanto alguns instrumentos
viraram peças de museu", explica o Dr.
Rui. No fórum previsto para acontecer até
junho deste ano não só a cirurgia vascular,
mas todas as áreas de especialidade estarão
presentes. E novas áreas, como a o neonatologia,
a radioterapia e a terapia intensiva, que ainda não
estão incluídas nas 52 especialidades
consideradas atualmente pela lei, também devem
definir os seus programas.
A cirurgia vascular, apesar de há muito já
estabelecida, também passa por transições
que requerem análise e debate. Após
os dois anos de cirurgia geral que lhe fornecem os
conhecimentos básicos sobre cirurgia, o médico
pode optar pela especialização em cirurgia
vascular, que exigirá mais dois anos de sua
dedicação. Nestes últimos dois
anos espera-se que seja oferecido um treinamento completo
que inclua os sistemas arterial e venoso, com aulas,
discussões e muitas cirurgias sob a orientação
de um docente. O que deve estar na pauta de discussão
da sociedade é a abrangência desse programa
de treinamento e o domínio de novas técnicas
sem prejuízo no aprendizado dos procedimentos
clássicos da cirurgia vascular. A cirurgia
endovascular, por exemplo, é hoje uma realidade.
"Mas o médico precisa estar preparado
para, quando necessário, abrir e realizar a
cirurgia convencional", diz Dr. Rui. A Dra. Ana
Terezinha lembra que em alguns poucos lugares, como
o Rio e Minas Gerais, ainda há uma separação
entre angiologia e vascular, mas ela compreende que
o conhecimento do médico deve ser amplo e abranger
as duas coisas, para melhor atender o paciente.
Outro aspecto importante é procurar adequar
a capacidade das instituições em oferecer
uma boa formação para o especialista
e a demanda da sociedade. Atualmente, existem 48 programas
em cirurgia vascular credenciados pelo MEC. Quase
metade de eles, 20, estão concentrados em São
Paulo. Seguindo uma tendência observável
também nas outras especialidades médicas
o que se vê é que muitos médicos
se deslocam de outros Estados, principalmente das
regiões norte e nordeste para se especializar
no sul e sudeste, onde se concentram as oportunidades.
Mas não retornam depois disso para seus locais
de origem, desfalcando ainda mais estas regiões
e onerando as escolas públicas, que muitas
vezes foram as que investiram em sua formação
básica. E a formação de um médico,
todos sabemos, implica num custo relativamente alto.
Outro aspecto importante da residência em cirurgia
vascular é que, apesar de as residências
credenciadas seguirem padrões mais ou menos
uniformes, principalmente nos hospitais universitários,
nos hospitais particulares a qualidade do treinamento
oferecido vai depender muito da qualificação
dos médicos, não como profissional,
mas como docente. "Atender o doente é
uma coisa, mas supervisionar para formar um novo médico
é outra bem diferente", adverte a Dra.
Ana Terezinha.
Atualmente a oferta de estágios procura, de
alguma forma, suprir a falta de residência médica
para todos. Ainda assim, cerca de 30% dos 15 mil médicos
que se formam todos os anos não chegam aos
programas de residência nem de estágio.
Com uma concorrência tão grande, a doutora
aconselha a certificar-se bem de sua vocação
e disponibilidade para os sacrifícios que a
carreira exige. Para muitos estudantes é atraente
pensar em seguir a cirurgia mas é preciso lembrar:
a vida do cirurgião não tem só
as consultas e cirurgias marcadas mas também
as emergências. São situações
em que, além de dominar a técnica, é
preciso tomar decisões rápidas. Por
isso mesmo o Dr. Rui pensa que seria oportuno até
mesmo uma espécie de avaliação
vocacional antes da formação.
A discussão está aberta.
Destaque da Tesouraria:
Março é o mês da cobrança
da anuidade dos sócios desta Sociedade. Portanto,
você estará recebendo pelo correio o
boleto para pagamento bancário. É importante
avisar que a falta de pagamento da anuidade acarreta
na perda de direitos do sócio devedor e, acumulados
dois anos de inadimplência, isto implica na
exclusão do sócio, conforme está
previsto nos estatutos da SBACV.
Para evitar problemas com o recebimento dos boletos
é importante manter seu endereço atualizado.
Possíveis alterações podem ser
comunicadas pelo telefone (0__11) 279-7626. E divulgue,
por favor, este telefone para sócios que você
saiba não ter recebido a cobrança, uma
vez que, provavelmente, ele também não
terá recebido este Boletim.
Reunião científica
Apresentação do Serviço de Angiologia
e Cirurgia Vascular da Faculdade de Ciências
Médicas da Santa Casa de São Paulo
A nossa faculdade foi fundada em 1963 pelo Prof. Emílio
Athiê e já nasceu com tradição,
pois trazia a experiência da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo, que até
1948 funcionou nas dependências do Hospital
Central da Sta. Casa de S. Paulo. Apoiada pelo Provedor
Dr. Christiano Altenfelder e subsidiado pela Fundação
Arnaldo Vieira de Carvalho, a "Velha Senhora"
recebeu sangue novo com os estudantes de medicina
que começaram a freqüentar as suas enfermarias.
Os diferentes Departamentos foram, então, estruturados
e, no Departamento de Cirurgia, a Disciplina de Cirurgia
Vascular tomou corpo.
Na década de 50 sobressaíram-se à
frente da Cirurgia Vascular os médicos Francisco
Luiz Cardamani Ranieri e José Clemente Guerra.
Na década de 60 tivemos a liderança
da Dra. Maria Luiza Gaiarça e do Prof. Jorge
Nagib Amary, este último Livre Docente da Faculdade,
tendo assumido a Chefia da Disciplina em 1968. Desde
então inúmeros profissionais da área
Vascular formaram-se, assumindo por último
a Chefia o Prof. Dr. Roberto Augusto Caffaro, médico
da casa, da 6ª. turma e ex-residente, com atuação
marcante na década de 90.
Muitas mudanças ocorreram nestes 37 anos de
Faculdade, sendo que aproximadamente 60 "especialistas"
(médicos residentes) em Cirurgia Vascular foram
formados neste Serviço que é reconhecido
pelo MEC.
Desde 1976, com o Curso de Pós-Graduação
plenamente instituído na Faculdade, principalmente
a pós-graduação em Cirurgia,
temos colegas Mestres, Doutores e Livres Docentes
em nosso Serviço.
A disciplina de Cirurgia Vascular da FCM da Sta. Casa
de S. Paulo é instituída por:
- Prof. Dr. Roberto Augusto Caffaro - Prof. Adjunto
- Chefia de Disciplina
- Prof. Dr. Valter Castelli Jr. - Doutor - 1º.
Assistente
- Dr. Walter Knegan Karakhanian - Mestre - 1º.
Assistente
- Profa. Dra. Denise Rabelo da Silveira - Doutor -
Assistente - Responsável pelo Ambulatório
de Aneurismas e Urgência não traumáticas
- Médica contratada pelo Serviço de
Angiologia
- Dr. Rogério Abdo Neser - Mestre - Assistente
- Responsável pela Urgência Traumática
- Médico contratado pelo Serviço de
Angiorradiologia
- Dr. Álvaro Razuk - Mestre - Assistente -
Médico contratado pelo Serviço de Angiorradiologia
- Dr. Cândido Ferreira da Fonseca - Pós-graduando
- Assistente
- Dr. Henrique Jorge Guedes Neto - Pós-graduando
- Assistente - Responsável pelo Ambulatório
de Linfologia e Angiodisplasia
- Dr. Francisco José Osse - Pós-graduando
- Assistente - Coordenador do Serviço de Angiorradiologia
- Responsável pelo Ambulatório de Patologia
Venosas
- Dr. Hélio Geraldo Nunes - Pós-graduando
- Assistente - Médico contratado pelo Serviço
de Angiorradiologia
- Dr. José Augusto de Jesus Ribeiro - Pós-graduando
- Assistente - Médico contratado pelo Serviço
de Angiorradiologia
- Dra. Walkíria Ciappina Hueb - Pós-graduanda
- Assistente - Responsável pela Disciplina
de Cirurgia Vascular no Hospital S. Luiz Gonzaga (Hospital
do Jaçanã)
A residência médica em Cirurgia Vascular
ocorre atualmente com dois anos de duração,
tendo como pré-requisito a residência
em Cirurgia Geral. Contamos atualmente com 3 médicos
"R4" (2 residentes e 1 estagiário)
e 4 "R3" (2 residentes e 2 estagiários).
Mensalmente estagiam 3 médicos "R1"
do Departamento de Cirurgia Geral durante o ano todo.
Do organograma da Cirurgia Vascular consta:
- 4 ambulatórios semanais (Doenças venosas,
doenças arteriais, doenças linfáticas
- angiodisplasia e insuficiência arterial =
reabilitação)
- O atendimento da urgência se faz ininterruptamente
com pleno atendimento ao Pronto Socorro
- Temos três dias cirúrgicos "eletivos"
(períodos da manhã e da tarde)
- O Serviço de Angiorradiologia (diagnóstico
e terapêutico) conta com dois aparelhos de angiografia
digital e atende diariamente de 2ª. Feira a Sábado,
inclusive no período noturno para emergências
- Dois períodos na semana se destinam a atividades
didáticas (visitas acadêmicas e reuniões
científicas).
Através do empenho de toda a equipe de Cirurgia
Vascular no trato com os doentes e participação
freqüente dos membros em congressos, como também
o incentivo freqüente para que se curse a pós-graduação,
vimos gradativamente melhorando nossa performance,
traduzida por crescentes e qualitativos procedimentos
cirúrgicos, que serão apresentados durante
a Reunião a nós destinada pela Regional
da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular.
São Paulo, fevereiro de 2000.
Disciplina de Cirurgia Vascular da S. Casa de São
Paulo
Trabalhos científicos
Rotura traumática do istmo da aorta
Ferronato, A., Barbosa, R., Rezende N. J., Kalil,
J. A.
Os autores apresentam o caso de um paciente masculino
de 32 anos, procedente do Piauí, com história
de dores torácicas persistentes há cinco
meses e episódio sugestivo de microembolização
distal no membro inferior esquerdo há três
meses. Relatava como antecedente importante acidente
em via pública há dezesseis anos, quando
sofreu politraumatismo, tendo permanecido internado
por aproximadamente dois meses, ocasião em
que teve alta sem seqüelas aparentes.
Foi submetido, no serviço, a tomografia helicoidal
computadorizada do tórax e aortografia por
tomografia computadorizada, constatando-se dilação
aneurismática do istmo da aorta.
O paciente foi submetido a tratamento cirúrgico:
aneurismectomia e enxerto término-terminal
na aorta torácica descendente, tendo boa evolução
pós-operatória.
Discutem a incidência da entidade, sua história
natural, e as possibilidades terapêuticas.
Utilização do retalho aponeurótico
vascularizado na síntese do acesso femoral
para cirurgias arteriais
Lima ML, Reis JMSM, Storani JN, Alves C, Tirelli RHBR,
Furlan V, Lima MS
Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Ipiranga
- São Paulo/SP
Chefe de Equipe: Dr. José Mário S. M.
Reis
Objetivo: Avaliar uma técnica cirúrgica
estabelecida e amplamente empregada no meio cirúrgico,
aplicando esse recurso nas abordagens cirúrgicas
da região femoral; em cirurgia vascular, como
complemento de síntese.
Materiais e métodos: De fevereiro de 1998 a
janeiro de 2000, 97 cruras, 69 pacientes (44 masculinos
e 25 femininos), com idades variando entre 38 a 89
anos, foram submetidos a procedimentos cirúrgicos
vasculares na região femoral; que foram enxertos
com próteses ou com veias, do tipo: (33) fêmoro-poplíteos,
(3) fêmoro-distais, (5) ilíaco-femorais,
(23) aorto-bi-femorais, (4) fêmoro-femoral cruzados
e (1) axilo-bi-femoral. 49 foram submetidos a síntese
convencional da região femoral e 48 com a rotação
de um retalho aponeurótico vascularizado do
músculo sartório e fascia lata, o qual
foi suturado com o conjunto aponeurótico adutor
ou fascia de Scarpa e ligamento inguinal como primeiro
plano, como segundo plano a fascia de Scarpa, como
terceiro plano (a fascia de Camper) e como quarto
plano a pele.
Resultados: Das 97 cruras submetidas à cirurgia,
(8) 8,25% evoluíram com infecção
de anastomose arterial e sangramento com choque hipovolêmico
sendo que (7) 7,22% submetidos a síntese convencional
e (1) 1,03% com retalho.
Conclusão:
1) O retalho aponeurótico vascularizado do
músculo sartório e fascia lata é
eficaz na síntese do acesso femoral;
2) O retalho aponeurótico vascularizado do
músculo sartório e fascia lata é
eficaz para evitar infecção da região
femoral.
Artigo
Título: Xenofilia - A síndrome de Caramuru
Pedro Puech-Leão*
...e porque entre os restos do destroçado barco
achasse um arcabuz, dele fez o instrumento mágico
de intimidação. Derrubou com um tiro,
no vôo, a ave: e logo os selvagens o reverenciaram,
como ao "homem de fogo", o aliado sobrenatural.
Pedro Calmon
História do Brasil - As origens
3ª edição
A idéia, em si, era linda. Convidar colegas
de outros países para os nossos congressos,
trocar idéias, ampliar os horizontes. A ciência
não tem pátria, dizia Pasteur. De fato,
muito já aprendemos com nossos convidados estrangeiros.
Um dia, porém, começamos a perceber
que não aprendemos sempre, nem com todos. Alguns
colegas convidados de outros países limitam-se
a dar uma aulinha de graduação, num
congresso onde todos já são especialistas,
e muitos têm grande experiência. Outros,
limitam-se a apresentar sua meia dúzia de diapositivos,
e vão para a praia - não lhes interessa
absolutamente saber o que os brasileiros têm
a dizer sobre o assunto - e deixam as tradutoras falando
para ninguém. Quantas vezes saímos da
sala de conferência e ouvimos alguém
perguntar: por que convidaram esse cara?
Algumas vezes assisti a conferências de estrangeiros
(aqui no Brasil) e, ao final, verifiquei que a minha
experiência no assunto era maior do que a dele.
Muitas vezes a minha experiência era menor,
mas eu conhecia alguns colegas, brasileiros, que tinham
mais experiência do que ele. Vi casos em que
o estrangeiro não veio e, na última
hora, foi substituído por um brasileiro com
experiência naquele campo - e proferiu uma belíssima
palestra. Estranhos convites... O argumento dos organizadores,
muitas vezes, era: "Se eu for convidar brasileiros
para mostrar sua experiência, vai dar um enorme
problema político; porque este, não
o outro etc. É mais fácil assim: só
estrangeiro fala." Argumento, no mínimo,
simplista.
Talvez nem precisássemos de convidados, para
certos temas. Discutindo o assunto com colegas, ouvi
com freqüência: "Se não tiver
um estrangeiro, ninguém vem...", referindo-se
aos brasileiros. Que tipo de povo somos nós,
afinal? Será que não conseguimos nos
livrar do fascínio pela corte de Portugal (ou
dos Estados Unidos, seus sucessores na nossa vocação
colonial), depois de 500 anos?
Esses convidados, antes, custavam caro. Era preciso
obter patrocínios, muitas vezes usando o prestígio
da Sociedade ou dos organizadores. Alguns, entretanto,
traziam informações valiosas, e nos
ensinavam tanto, que valia a pena, mesmo descontando
as decepções com outros. O prazer de
receber colegas de outros países é legítimo,
e a xenofobia é um defeito que pode causar
danos irreparáveis à ciência.
A procura pelo aprimoramento e pela troca de informações,
pela mesclagem de culturas e de técnicas é,
portanto, saudável. O perigo está no
exagero, ou seja, em considerar que alguém
merece crédito ilimitado e respeito reverente
apenas por ser estrangeiro e dispor de uma aparelhagem
que nós não temos. É a síndrome
de Caramuru.
De um tempo para cá, as coisas começaram
a ficar um pouco mais complexas. Fatores como a globalização,
os interesses das indústrias e das seguradoras
começaram a entrar no jogo, sem que estivéssemos
treinados. E começamos a ver situações
estranhas. Bastava anunciar que haveria um congresso
e os organizadores começavam a receber oferecimentos
(espontâneos!) de indústrias para trazer
estrangeiros, com tudo pago. Desde que fosse o Dr.
Fulano. Quando iam ver, o Dr. Fulano mal passava em
casa, correndo o mundo todo para falar sobre tal aparelho,
instrumento ou remédio. E era aceito... Afinal,
de graça, vai Ter mais gente, fica bonito no
cartaz, mais um convidado.
Depois vieram os hospitais. Recentemente um grande
hospital americano ofereceu toda uma equipe para vir
a um dos nossos eventos, tudo pago por eles, para
nos ensinar. Também parecia uma boa idéia.
Como eles são legais... E, ainda por cima,
ofereciam um coquetel, por conta deles, para os brasileiros,
aqui no Brasil. Um estranho caso de visitante recebendo
o anfitrião. Quando vieram, perceberam atônitos
que a equipe incluía não só médicos,
mas gente de marketing. Na entrada do salão
de convenções instalaram uma exposição
do hospital, com folhetos em dois idiomas sobre o
seu sistema de recebimento de pacientes internacionais,
e todas as instruções sobre como encaminhar
pacientes a eles.
O que há de errado com a concorrência?
Nada. Ela é saudável, e mesmo desejável.
A globalização atinge hoje todos os
setores, desde a indústria até os serviços,
passando pelo comércio. Não é
de estranhar que ela chegasse à medicina. Não
nos assusta, por certo, porque todos sabemos que estamos
preparados. Na nossa especialidade, muitos centros
brasileiros oferecem excelentes condições
profissionais para o tratamento de doenças
vasculares. Em 1998, uma grande seguradora enviou
uma carta a todos os seus segurados dizendo que estava
instalando um escritório especial para os que
quisessem ser operados no exterior. Providenciavam
reserva, viagem, e tudo era pago por eles depois,
diretamente ao hospital. Inclusive honorários.
Bravo! Liberdade de escolha, enfim.
Não sejamos, porém, ingênuos.
Será que na indústria, ou no comércio,
alguém oferece sua vitrine para o concorrente
expor produtos? Será que a "American Clinic
Inc." vai aceitar encaminhamento de clientes
do SUS? Como é esse sistema em que um dos concorrentes
tem que arcar com o tratamento dos desfavorecidos,
dos sem-teto, com salários de funcionário
público de terceiro mundo, enquanto o outro
disputa com ele os abastados?
Acorda, Brasil! Acorda, SBACV! Deixamos aqui uma proposta,
para reflexão e sugestão de colegas,
sobre as condições em que devem ser
convidados estrangeiros para congressos:
1. O colega estrangeiro tem experiência em um
determinado assunto, maior do que qualquer um de nós
brasileiros. Seja bem-vindo para nos ensinar, e seremos
agradecidos.
2. O colega estrangeiro tem experiência com
um determinado assunto, e alguns brasileiros também
têm, tanto quanto ele. Seja bem-vindo para um
debate, onde todos aprenderemos. Nós com e
ele conosco. Isso é intercâmbio de idéias,
e sempre produtivo. Divida o pódio com nossos
colegas, e sinta-se bem entre nós.
3. O colega estrangeiro tem certa experiência
num assunto, mas a maior parte dos brasileiros tem
mais do que ele. Dispensamos, obrigado.
4. A empresa patrocinadora, em nenhuma hipótese,
pode decidir ou sugerir quem será convidado
para as sessões dentro do programa do congresso.
Se quiser trazer alguém de sua escolha que
o faça, mas num evento paralelo, fora do horário
do congresso, e deixando bem claro que aquela é
uma conferência patrocinada pela Tal e Tal Ltda.
5. Não permitamos, de nenhuma forma, propaganda
de Hospital ou Clínica no Congresso, nem locus
na exposição comercial, se os componentes
da clínica não forem sócios da
SBACV. Afinal, por que se chama Sociedade? Você
acha que no congresso da Society for Vascular Surgery
deixariam você montar um stand da sua clínica,
na entrada do anfiteatro, de graça?
E vamos todos, juntos, aproveitar a troca de experiência
com colegas, estrangeiros e brasileiros, nos congressos.
De forma sadia, acadêmica, científica,
como convém a uma Sociedade. Sem a interferência
de quaisquer fatores comerciais. Há, no mundo
todo, médicos interessados nesse tipo de intercâmbio,
que não têm outro interesse senão
conhecer mais sobre a doença e tratar melhor
os pacientes. Vamos encontrá-los.
Pedro Puech-Leão é ...
Journal Club
Detecção de Clamydia pneumonial e não
Hicobacter pylori em placas ateroscletóticas
de Aneurismas Aórticos
Francisco Blasi, Franco Dentl, Mario Erba, Roberto
Consentino, Rita Raccanelli, Angela Rinaldi, Laura
Fagetti, Glória Esposito, Ugo Ruberti e Luigi
Allegra.
- Instituto de Doenças Respiratórias,
de Cirurgia Geral e Cardiovascular da Universidade
de Milão - Itália
- Jornal de Microbiologia Clínica - Nov./1996
Resumo:
Trabalhos recentes sugerem uma associação
entre Clamydia pneumoniae e a bactéria Helicobacter
pylori com aterosclerose. Os autores estudaram 51
pacientes submetidos à cirurgia de aneurisma
de aorta abdominal. Procedeu-se à detecção
de anticorpos no soro contra Clamydia e Helicobacter,
assim como o reconhecimento do DNA destas bactérias
em fragmentos de placas ateroscleróticas provenientes
do aneurisma ressecado. 80% dos pacientes (41/51)
foram soropositivos e 50% (26/51) DNA positivos para
Clamydia, sem qualquer evidência de H. Pylori
nas placas. Este estudo reforça o possível
envolvimento da Clamydia pneumoniae na patogênese
do aneurisma aórtico aterosclerótico.
(Dr. Valter Castelli Jr.)
Coronary Bypass and carotid endarterectony: does a
combined approach increase risk?
Borger, M. A.; Fremes, S. E.; Weissel, R. D.; Cohen,
G.; Rao, V.; Lindsay, T. F.; Naylor, C. D.
Ann Thoracic Surg. 1999 Jul; 68 (1): 14-20
A realização da endartectomia da artéria
carótida simultaneamente com a cirurgia de
revascularização miocárdia permanece
controversa. Os autores realizaram uma meta-análise
de artigos publicados, obtidos no Medicine (???),
que relatassem séries cirúrgicas de
endarterectomia da carótida realizada isolada
ou simultaneamente.
Ocorrência de AVC, óbito e AVC/óbito
foram estudados. Nenhum dos estudos eram completamente
randomizados.
A meta-análise revelou um aumento significativo
de morbidade cirúrgica quando realizada de
modo combinado (1,49; 95% [ 1,03-2,15] ). Os autores
referem a necessidade da realização
dos estudos randomizados para uma conduta mais acertada
em paciente com doença coronariana e carotídea
concomitantemente.
(Dr. Nilo Izukawa)
An unexpectedly high rate of pulmonary embolism in
patients with superficial trombophlebitis of the thigh
Fábio Verlato; Pietro Zuchetta; Paolo Prandonic;
Giuseppe Camponex; Maria C. Marzola; Giovanna Salmistrano;
Franco Buc; Romeo Martini; Frederico Rosso; Giuseppe
M. Andreozzi.
J. Vasc. Surg. 1999; 30:1113-5
Os autores estudaram 21 pacientes com Flebite superficial
de veia safena interna infra genicular, diagnosticada
através de Ecodoppler colorido. RX de tórax
e cintilografia pulmonar de perfusão. Foram
realizadas 3 (três) horas após o diagnóstico
inicial.
Em 7 (33,3%; 55% [ 14,6-57,0 ] ) encontraram achados
compatíveis com embolia pulmonar. Concluíram,
os autores, que a flebite superficial de perna não
é uma entidade tão benigna como antes
considerada, apresentando nesta pequena série
de casos um índice de Embolia Pulmonar inexplicavelmente
alta.
(Dr. Nilo Izukawa)
Agenda
Eventos nacionais
4º. Curso Teórico e Prático para
Diagnóstico e Tratamento de Linfedema
Responsável: Dr. Henrique Jorge Guedes
data: 25 e 26 de março
local: Fortune Residence
tel.: (0__11) 5581-4468 e 5078-7758 (Sinfito-fenafito)
XV Encontro de Angiologia e Cirurgia Vascular do Rio
de Janeiro
data: 19 a 21 de maio
local: Centro de Convenções do Colégio
Brasileiro de Cirurgiões - Rio de Janeiro/RJ
tel.: (0__21) 263-1625
fax: (0__21) 263-4884
III Encontro de Angiologia e Cirurgia Vascular
Data: 26 e 27 de maio
Local: Hotel Taiwan - Ribeirão Preto/SP
tel.: (0__11) 279-7626
34o. Congresso Brasileiro de Angiologia e Cirurgia
Vascular
de 20 a 25 de outubro de 2000
local: Hotel Intern. Continental Rio - Rio de Janeiro/RJ
tel.: (0__21) 286-2846
fax: (0__21) 537-9134
Evento internacional
19o. Meeting of the International Union of Angiology
data: 05 de maio de 2000
local: Shent - Bélgica
tel.: +32 9 233-8660
fax: +32 9 233-8597
site: www.semico.belangiology
e-mail: angiology@semico.be
Participe:
Você pode mandar artigos e informações
sobre cursos e eventos. Faça também
suas críticas e sugestões ao novo Boletim
Informativo da SBACV - SP. Mande seu e-mail para:
camposra@ig.com.br
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