Boletim Informativo

Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular

Boletim Informativo Regional São Paulo
Biênio 2000/2001 - no. 02 – Março/00

O Boletim Informativo é publicação oficial da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular Regional São Paulo.

Nesta edição
Editorial
Reportagem: residência médica.
Destaque da Tesouraria
Reunião Científica
Trabalhos Científicos
Artigo: A síndrome de Caramuru
Journal Club
Agenda

Editorial
A primeira reunião do ano 2000 contou com a presença de cerca de 60 pessoas. Pela primeira vez foi apresentado o trabalho de um Serviço, no caso, o da PUC de Sorocaba/SP. Esta apresentação mostrou, principalmente, que vários tipos de cirurgia, apesar de serem muito discutidos em vários congressos, ainda não são utilizados na prática dos Serviços Universitários, como é o caso de Sorocaba. Um exemplo é a cirurgia de aneurisma toraco-abdominal.
Isto revela as diferenças regionais e ao mesmo tempo mostra que aquilo que é considerado primordial para a Escola Paulista de Medicina (Unifesp) ou para a Faculdade de Medicina da USP talvez não seja primordial para outros centros.
Mas podemos concluir que, se a pesquisa realizada nestes centros estiver buscando soluções para os pacientes que atende, com certeza estará no caminho certo. Com isto, parabenizamos a PUC de Sorocaba, porque é o que estão fazendo lá: procurando atender o paciente.
Com relação ao curso da APM, informamos que todos os detalhes deste curso devem estar disponíveis no próximo boletim.
Comunicamos também a todos os associados que continuamos recebendo os resumos para apresentação e discussão nas próximas reuniões científicas. Lembrem-se que até o dia 15 do mês anterior ao da publicação os resumos devem ser enviados. Além dos resumos de trabalhos, artigos também podem ser enviados para publicação no Boletim. Encaminhe-os para a secretaria da SBACV ou para o e-mail rosecampos@uol.com.br.

O Desafio da Residência Médica
Alcançar a excelência no preparo do profissional é uma dos principais objetivos da residência médica. E o papel desta Sociedade é fundamental para que, pensando na formação do cirurgião vascular, se alcance plenamente este objetivo. Foi uma das importantes conclusões a que se pôde chegar após entrevistas com o Prof. Dr. Rui Barbosa, presidente da Comissão Estadual de Residência Médica e Coordenador Regional da Comissão Nacional de Residência Médica, e com a Dra. Ana Terezinha Guillaumon, Profa. Dra. no Departamento de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.
Coube ao MEC - Ministério da Educação e Cultura regulamentar a residência médica, que se constitui em fator primordial na formação do médico. O decreto 80.281, de setembro de 1977, é uma lei específica sobre o tema e criou, ao mesmo tempo, a Comissão Nacional de Residência Médica. Hoje estão previstas a criação de bolsa de estudos, a definição da carga horária e dos programas de residência, os direitos do residente. Uma resolução, de 1983, tratou de estabelecer os requisitos mínimos dos vários programas de residência médica. É o que garante uma certa padronização desses programas.
Daquela época para cá, entretanto, muita coisa mudou e evoluiu nos procedimentos e instrumentalização utilizados pela cirurgia vascular. Por isso é tão oportuna a parceria que comissão vem se empenhando em fazer com a Sociedade, para definir o novo programa médico da residência. "Surgiu uma grande quantidade de novos instrumentos e recursos. E também é preciso definir quais as novas especialidades. Enquanto alguns instrumentos viraram peças de museu", explica o Dr. Rui. No fórum previsto para acontecer até junho deste ano não só a cirurgia vascular, mas todas as áreas de especialidade estarão presentes. E novas áreas, como a o neonatologia, a radioterapia e a terapia intensiva, que ainda não estão incluídas nas 52 especialidades consideradas atualmente pela lei, também devem definir os seus programas.
A cirurgia vascular, apesar de há muito já estabelecida, também passa por transições que requerem análise e debate. Após os dois anos de cirurgia geral que lhe fornecem os conhecimentos básicos sobre cirurgia, o médico pode optar pela especialização em cirurgia vascular, que exigirá mais dois anos de sua dedicação. Nestes últimos dois anos espera-se que seja oferecido um treinamento completo que inclua os sistemas arterial e venoso, com aulas, discussões e muitas cirurgias sob a orientação de um docente. O que deve estar na pauta de discussão da sociedade é a abrangência desse programa de treinamento e o domínio de novas técnicas sem prejuízo no aprendizado dos procedimentos clássicos da cirurgia vascular. A cirurgia endovascular, por exemplo, é hoje uma realidade. "Mas o médico precisa estar preparado para, quando necessário, abrir e realizar a cirurgia convencional", diz Dr. Rui. A Dra. Ana Terezinha lembra que em alguns poucos lugares, como o Rio e Minas Gerais, ainda há uma separação entre angiologia e vascular, mas ela compreende que o conhecimento do médico deve ser amplo e abranger as duas coisas, para melhor atender o paciente.
Outro aspecto importante é procurar adequar a capacidade das instituições em oferecer uma boa formação para o especialista e a demanda da sociedade. Atualmente, existem 48 programas em cirurgia vascular credenciados pelo MEC. Quase metade de eles, 20, estão concentrados em São Paulo. Seguindo uma tendência observável também nas outras especialidades médicas o que se vê é que muitos médicos se deslocam de outros Estados, principalmente das regiões norte e nordeste para se especializar no sul e sudeste, onde se concentram as oportunidades. Mas não retornam depois disso para seus locais de origem, desfalcando ainda mais estas regiões e onerando as escolas públicas, que muitas vezes foram as que investiram em sua formação básica. E a formação de um médico, todos sabemos, implica num custo relativamente alto.
Outro aspecto importante da residência em cirurgia vascular é que, apesar de as residências credenciadas seguirem padrões mais ou menos uniformes, principalmente nos hospitais universitários, nos hospitais particulares a qualidade do treinamento oferecido vai depender muito da qualificação dos médicos, não como profissional, mas como docente. "Atender o doente é uma coisa, mas supervisionar para formar um novo médico é outra bem diferente", adverte a Dra. Ana Terezinha.
Atualmente a oferta de estágios procura, de alguma forma, suprir a falta de residência médica para todos. Ainda assim, cerca de 30% dos 15 mil médicos que se formam todos os anos não chegam aos programas de residência nem de estágio. Com uma concorrência tão grande, a doutora aconselha a certificar-se bem de sua vocação e disponibilidade para os sacrifícios que a carreira exige. Para muitos estudantes é atraente pensar em seguir a cirurgia mas é preciso lembrar: a vida do cirurgião não tem só as consultas e cirurgias marcadas mas também as emergências. São situações em que, além de dominar a técnica, é preciso tomar decisões rápidas. Por isso mesmo o Dr. Rui pensa que seria oportuno até mesmo uma espécie de avaliação vocacional antes da formação.
A discussão está aberta.

Destaque da Tesouraria:
Março é o mês da cobrança da anuidade dos sócios desta Sociedade. Portanto, você estará recebendo pelo correio o boleto para pagamento bancário. É importante avisar que a falta de pagamento da anuidade acarreta na perda de direitos do sócio devedor e, acumulados dois anos de inadimplência, isto implica na exclusão do sócio, conforme está previsto nos estatutos da SBACV.
Para evitar problemas com o recebimento dos boletos é importante manter seu endereço atualizado. Possíveis alterações podem ser comunicadas pelo telefone (0__11) 279-7626. E divulgue, por favor, este telefone para sócios que você saiba não ter recebido a cobrança, uma vez que, provavelmente, ele também não terá recebido este Boletim.

Reunião científica
Apresentação do Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
A nossa faculdade foi fundada em 1963 pelo Prof. Emílio Athiê e já nasceu com tradição, pois trazia a experiência da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que até 1948 funcionou nas dependências do Hospital Central da Sta. Casa de S. Paulo. Apoiada pelo Provedor Dr. Christiano Altenfelder e subsidiado pela Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, a "Velha Senhora" recebeu sangue novo com os estudantes de medicina que começaram a freqüentar as suas enfermarias.
Os diferentes Departamentos foram, então, estruturados e, no Departamento de Cirurgia, a Disciplina de Cirurgia Vascular tomou corpo.
Na década de 50 sobressaíram-se à frente da Cirurgia Vascular os médicos Francisco Luiz Cardamani Ranieri e José Clemente Guerra. Na década de 60 tivemos a liderança da Dra. Maria Luiza Gaiarça e do Prof. Jorge Nagib Amary, este último Livre Docente da Faculdade, tendo assumido a Chefia da Disciplina em 1968. Desde então inúmeros profissionais da área Vascular formaram-se, assumindo por último a Chefia o Prof. Dr. Roberto Augusto Caffaro, médico da casa, da 6ª. turma e ex-residente, com atuação marcante na década de 90.
Muitas mudanças ocorreram nestes 37 anos de Faculdade, sendo que aproximadamente 60 "especialistas" (médicos residentes) em Cirurgia Vascular foram formados neste Serviço que é reconhecido pelo MEC.
Desde 1976, com o Curso de Pós-Graduação plenamente instituído na Faculdade, principalmente a pós-graduação em Cirurgia, temos colegas Mestres, Doutores e Livres Docentes em nosso Serviço.
A disciplina de Cirurgia Vascular da FCM da Sta. Casa de S. Paulo é instituída por:
- Prof. Dr. Roberto Augusto Caffaro - Prof. Adjunto - Chefia de Disciplina
- Prof. Dr. Valter Castelli Jr. - Doutor - 1º. Assistente
- Dr. Walter Knegan Karakhanian - Mestre - 1º. Assistente
- Profa. Dra. Denise Rabelo da Silveira - Doutor - Assistente - Responsável pelo Ambulatório de Aneurismas e Urgência não traumáticas - Médica contratada pelo Serviço de Angiologia
- Dr. Rogério Abdo Neser - Mestre - Assistente - Responsável pela Urgência Traumática - Médico contratado pelo Serviço de Angiorradiologia
- Dr. Álvaro Razuk - Mestre - Assistente - Médico contratado pelo Serviço de Angiorradiologia
- Dr. Cândido Ferreira da Fonseca - Pós-graduando - Assistente
- Dr. Henrique Jorge Guedes Neto - Pós-graduando - Assistente - Responsável pelo Ambulatório de Linfologia e Angiodisplasia
- Dr. Francisco José Osse - Pós-graduando - Assistente - Coordenador do Serviço de Angiorradiologia - Responsável pelo Ambulatório de Patologia Venosas
- Dr. Hélio Geraldo Nunes - Pós-graduando - Assistente - Médico contratado pelo Serviço de Angiorradiologia
- Dr. José Augusto de Jesus Ribeiro - Pós-graduando - Assistente - Médico contratado pelo Serviço de Angiorradiologia
- Dra. Walkíria Ciappina Hueb - Pós-graduanda - Assistente - Responsável pela Disciplina de Cirurgia Vascular no Hospital S. Luiz Gonzaga (Hospital do Jaçanã)
A residência médica em Cirurgia Vascular ocorre atualmente com dois anos de duração, tendo como pré-requisito a residência em Cirurgia Geral. Contamos atualmente com 3 médicos "R4" (2 residentes e 1 estagiário) e 4 "R3" (2 residentes e 2 estagiários).
Mensalmente estagiam 3 médicos "R1" do Departamento de Cirurgia Geral durante o ano todo.
Do organograma da Cirurgia Vascular consta:
- 4 ambulatórios semanais (Doenças venosas, doenças arteriais, doenças linfáticas - angiodisplasia e insuficiência arterial = reabilitação)
- O atendimento da urgência se faz ininterruptamente com pleno atendimento ao Pronto Socorro
- Temos três dias cirúrgicos "eletivos" (períodos da manhã e da tarde)
- O Serviço de Angiorradiologia (diagnóstico e terapêutico) conta com dois aparelhos de angiografia digital e atende diariamente de 2ª. Feira a Sábado, inclusive no período noturno para emergências
- Dois períodos na semana se destinam a atividades didáticas (visitas acadêmicas e reuniões científicas).
Através do empenho de toda a equipe de Cirurgia Vascular no trato com os doentes e participação freqüente dos membros em congressos, como também o incentivo freqüente para que se curse a pós-graduação, vimos gradativamente melhorando nossa performance, traduzida por crescentes e qualitativos procedimentos cirúrgicos, que serão apresentados durante a Reunião a nós destinada pela Regional da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular.
São Paulo, fevereiro de 2000.
Disciplina de Cirurgia Vascular da S. Casa de São Paulo

Trabalhos científicos
Rotura traumática do istmo da aorta
Ferronato, A., Barbosa, R., Rezende N. J., Kalil, J. A.
Os autores apresentam o caso de um paciente masculino de 32 anos, procedente do Piauí, com história de dores torácicas persistentes há cinco meses e episódio sugestivo de microembolização distal no membro inferior esquerdo há três meses. Relatava como antecedente importante acidente em via pública há dezesseis anos, quando sofreu politraumatismo, tendo permanecido internado por aproximadamente dois meses, ocasião em que teve alta sem seqüelas aparentes.
Foi submetido, no serviço, a tomografia helicoidal computadorizada do tórax e aortografia por tomografia computadorizada, constatando-se dilação aneurismática do istmo da aorta.
O paciente foi submetido a tratamento cirúrgico: aneurismectomia e enxerto término-terminal na aorta torácica descendente, tendo boa evolução pós-operatória.
Discutem a incidência da entidade, sua história natural, e as possibilidades terapêuticas.

Utilização do retalho aponeurótico vascularizado na síntese do acesso femoral para cirurgias arteriais
Lima ML, Reis JMSM, Storani JN, Alves C, Tirelli RHBR, Furlan V, Lima MS
Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Ipiranga - São Paulo/SP
Chefe de Equipe: Dr. José Mário S. M. Reis
Objetivo: Avaliar uma técnica cirúrgica estabelecida e amplamente empregada no meio cirúrgico, aplicando esse recurso nas abordagens cirúrgicas da região femoral; em cirurgia vascular, como complemento de síntese.
Materiais e métodos: De fevereiro de 1998 a janeiro de 2000, 97 cruras, 69 pacientes (44 masculinos e 25 femininos), com idades variando entre 38 a 89 anos, foram submetidos a procedimentos cirúrgicos vasculares na região femoral; que foram enxertos com próteses ou com veias, do tipo: (33) fêmoro-poplíteos, (3) fêmoro-distais, (5) ilíaco-femorais, (23) aorto-bi-femorais, (4) fêmoro-femoral cruzados e (1) axilo-bi-femoral. 49 foram submetidos a síntese convencional da região femoral e 48 com a rotação de um retalho aponeurótico vascularizado do músculo sartório e fascia lata, o qual foi suturado com o conjunto aponeurótico adutor ou fascia de Scarpa e ligamento inguinal como primeiro plano, como segundo plano a fascia de Scarpa, como terceiro plano (a fascia de Camper) e como quarto plano a pele.
Resultados: Das 97 cruras submetidas à cirurgia, (8) 8,25% evoluíram com infecção de anastomose arterial e sangramento com choque hipovolêmico sendo que (7) 7,22% submetidos a síntese convencional e (1) 1,03% com retalho.
Conclusão:
1) O retalho aponeurótico vascularizado do músculo sartório e fascia lata é eficaz na síntese do acesso femoral;
2) O retalho aponeurótico vascularizado do músculo sartório e fascia lata é eficaz para evitar infecção da região femoral.

Artigo
Título: Xenofilia - A síndrome de Caramuru
Pedro Puech-Leão*
...e porque entre os restos do destroçado barco achasse um arcabuz, dele fez o instrumento mágico de intimidação. Derrubou com um tiro, no vôo, a ave: e logo os selvagens o reverenciaram, como ao "homem de fogo", o aliado sobrenatural.
Pedro Calmon
História do Brasil - As origens
3ª edição
A idéia, em si, era linda. Convidar colegas de outros países para os nossos congressos, trocar idéias, ampliar os horizontes. A ciência não tem pátria, dizia Pasteur. De fato, muito já aprendemos com nossos convidados estrangeiros.
Um dia, porém, começamos a perceber que não aprendemos sempre, nem com todos. Alguns colegas convidados de outros países limitam-se a dar uma aulinha de graduação, num congresso onde todos já são especialistas, e muitos têm grande experiência. Outros, limitam-se a apresentar sua meia dúzia de diapositivos, e vão para a praia - não lhes interessa absolutamente saber o que os brasileiros têm a dizer sobre o assunto - e deixam as tradutoras falando para ninguém. Quantas vezes saímos da sala de conferência e ouvimos alguém perguntar: por que convidaram esse cara?
Algumas vezes assisti a conferências de estrangeiros (aqui no Brasil) e, ao final, verifiquei que a minha experiência no assunto era maior do que a dele. Muitas vezes a minha experiência era menor, mas eu conhecia alguns colegas, brasileiros, que tinham mais experiência do que ele. Vi casos em que o estrangeiro não veio e, na última hora, foi substituído por um brasileiro com experiência naquele campo - e proferiu uma belíssima palestra. Estranhos convites... O argumento dos organizadores, muitas vezes, era: "Se eu for convidar brasileiros para mostrar sua experiência, vai dar um enorme problema político; porque este, não o outro etc. É mais fácil assim: só estrangeiro fala." Argumento, no mínimo, simplista.
Talvez nem precisássemos de convidados, para certos temas. Discutindo o assunto com colegas, ouvi com freqüência: "Se não tiver um estrangeiro, ninguém vem...", referindo-se aos brasileiros. Que tipo de povo somos nós, afinal? Será que não conseguimos nos livrar do fascínio pela corte de Portugal (ou dos Estados Unidos, seus sucessores na nossa vocação colonial), depois de 500 anos?
Esses convidados, antes, custavam caro. Era preciso obter patrocínios, muitas vezes usando o prestígio da Sociedade ou dos organizadores. Alguns, entretanto, traziam informações valiosas, e nos ensinavam tanto, que valia a pena, mesmo descontando as decepções com outros. O prazer de receber colegas de outros países é legítimo, e a xenofobia é um defeito que pode causar danos irreparáveis à ciência. A procura pelo aprimoramento e pela troca de informações, pela mesclagem de culturas e de técnicas é, portanto, saudável. O perigo está no exagero, ou seja, em considerar que alguém merece crédito ilimitado e respeito reverente apenas por ser estrangeiro e dispor de uma aparelhagem que nós não temos. É a síndrome de Caramuru.
De um tempo para cá, as coisas começaram a ficar um pouco mais complexas. Fatores como a globalização, os interesses das indústrias e das seguradoras começaram a entrar no jogo, sem que estivéssemos treinados. E começamos a ver situações estranhas. Bastava anunciar que haveria um congresso e os organizadores começavam a receber oferecimentos (espontâneos!) de indústrias para trazer estrangeiros, com tudo pago. Desde que fosse o Dr. Fulano. Quando iam ver, o Dr. Fulano mal passava em casa, correndo o mundo todo para falar sobre tal aparelho, instrumento ou remédio. E era aceito... Afinal, de graça, vai Ter mais gente, fica bonito no cartaz, mais um convidado.
Depois vieram os hospitais. Recentemente um grande hospital americano ofereceu toda uma equipe para vir a um dos nossos eventos, tudo pago por eles, para nos ensinar. Também parecia uma boa idéia. Como eles são legais... E, ainda por cima, ofereciam um coquetel, por conta deles, para os brasileiros, aqui no Brasil. Um estranho caso de visitante recebendo o anfitrião. Quando vieram, perceberam atônitos que a equipe incluía não só médicos, mas gente de marketing. Na entrada do salão de convenções instalaram uma exposição do hospital, com folhetos em dois idiomas sobre o seu sistema de recebimento de pacientes internacionais, e todas as instruções sobre como encaminhar pacientes a eles.
O que há de errado com a concorrência? Nada. Ela é saudável, e mesmo desejável. A globalização atinge hoje todos os setores, desde a indústria até os serviços, passando pelo comércio. Não é de estranhar que ela chegasse à medicina. Não nos assusta, por certo, porque todos sabemos que estamos preparados. Na nossa especialidade, muitos centros brasileiros oferecem excelentes condições profissionais para o tratamento de doenças vasculares. Em 1998, uma grande seguradora enviou uma carta a todos os seus segurados dizendo que estava instalando um escritório especial para os que quisessem ser operados no exterior. Providenciavam reserva, viagem, e tudo era pago por eles depois, diretamente ao hospital. Inclusive honorários. Bravo! Liberdade de escolha, enfim.
Não sejamos, porém, ingênuos. Será que na indústria, ou no comércio, alguém oferece sua vitrine para o concorrente expor produtos? Será que a "American Clinic Inc." vai aceitar encaminhamento de clientes do SUS? Como é esse sistema em que um dos concorrentes tem que arcar com o tratamento dos desfavorecidos, dos sem-teto, com salários de funcionário público de terceiro mundo, enquanto o outro disputa com ele os abastados?
Acorda, Brasil! Acorda, SBACV! Deixamos aqui uma proposta, para reflexão e sugestão de colegas, sobre as condições em que devem ser convidados estrangeiros para congressos:
1. O colega estrangeiro tem experiência em um determinado assunto, maior do que qualquer um de nós brasileiros. Seja bem-vindo para nos ensinar, e seremos agradecidos.
2. O colega estrangeiro tem experiência com um determinado assunto, e alguns brasileiros também têm, tanto quanto ele. Seja bem-vindo para um debate, onde todos aprenderemos. Nós com e ele conosco. Isso é intercâmbio de idéias, e sempre produtivo. Divida o pódio com nossos colegas, e sinta-se bem entre nós.
3. O colega estrangeiro tem certa experiência num assunto, mas a maior parte dos brasileiros tem mais do que ele. Dispensamos, obrigado.
4. A empresa patrocinadora, em nenhuma hipótese, pode decidir ou sugerir quem será convidado para as sessões dentro do programa do congresso. Se quiser trazer alguém de sua escolha que o faça, mas num evento paralelo, fora do horário do congresso, e deixando bem claro que aquela é uma conferência patrocinada pela Tal e Tal Ltda.
5. Não permitamos, de nenhuma forma, propaganda de Hospital ou Clínica no Congresso, nem locus na exposição comercial, se os componentes da clínica não forem sócios da SBACV. Afinal, por que se chama Sociedade? Você acha que no congresso da Society for Vascular Surgery deixariam você montar um stand da sua clínica, na entrada do anfiteatro, de graça?
E vamos todos, juntos, aproveitar a troca de experiência com colegas, estrangeiros e brasileiros, nos congressos. De forma sadia, acadêmica, científica, como convém a uma Sociedade. Sem a interferência de quaisquer fatores comerciais. Há, no mundo todo, médicos interessados nesse tipo de intercâmbio, que não têm outro interesse senão conhecer mais sobre a doença e tratar melhor os pacientes. Vamos encontrá-los.
Pedro Puech-Leão é ...

Journal Club
Detecção de Clamydia pneumonial e não Hicobacter pylori em placas ateroscletóticas de Aneurismas Aórticos
Francisco Blasi, Franco Dentl, Mario Erba, Roberto Consentino, Rita Raccanelli, Angela Rinaldi, Laura Fagetti, Glória Esposito, Ugo Ruberti e Luigi Allegra.
- Instituto de Doenças Respiratórias, de Cirurgia Geral e Cardiovascular da Universidade de Milão - Itália
- Jornal de Microbiologia Clínica - Nov./1996
Resumo:
Trabalhos recentes sugerem uma associação entre Clamydia pneumoniae e a bactéria Helicobacter pylori com aterosclerose. Os autores estudaram 51 pacientes submetidos à cirurgia de aneurisma de aorta abdominal. Procedeu-se à detecção de anticorpos no soro contra Clamydia e Helicobacter, assim como o reconhecimento do DNA destas bactérias em fragmentos de placas ateroscleróticas provenientes do aneurisma ressecado. 80% dos pacientes (41/51) foram soropositivos e 50% (26/51) DNA positivos para Clamydia, sem qualquer evidência de H. Pylori nas placas. Este estudo reforça o possível envolvimento da Clamydia pneumoniae na patogênese do aneurisma aórtico aterosclerótico.
(Dr. Valter Castelli Jr.)

Coronary Bypass and carotid endarterectony: does a combined approach increase risk?
Borger, M. A.; Fremes, S. E.; Weissel, R. D.; Cohen, G.; Rao, V.; Lindsay, T. F.; Naylor, C. D.
Ann Thoracic Surg. 1999 Jul; 68 (1): 14-20
A realização da endartectomia da artéria carótida simultaneamente com a cirurgia de revascularização miocárdia permanece controversa. Os autores realizaram uma meta-análise de artigos publicados, obtidos no Medicine (???), que relatassem séries cirúrgicas de endarterectomia da carótida realizada isolada ou simultaneamente.
Ocorrência de AVC, óbito e AVC/óbito foram estudados. Nenhum dos estudos eram completamente randomizados.
A meta-análise revelou um aumento significativo de morbidade cirúrgica quando realizada de modo combinado (1,49; 95% [ 1,03-2,15] ). Os autores referem a necessidade da realização dos estudos randomizados para uma conduta mais acertada em paciente com doença coronariana e carotídea concomitantemente.
(Dr. Nilo Izukawa)

An unexpectedly high rate of pulmonary embolism in patients with superficial trombophlebitis of the thigh
Fábio Verlato; Pietro Zuchetta; Paolo Prandonic; Giuseppe Camponex; Maria C. Marzola; Giovanna Salmistrano; Franco Buc; Romeo Martini; Frederico Rosso; Giuseppe M. Andreozzi.
J. Vasc. Surg. 1999; 30:1113-5
Os autores estudaram 21 pacientes com Flebite superficial de veia safena interna infra genicular, diagnosticada através de Ecodoppler colorido. RX de tórax e cintilografia pulmonar de perfusão. Foram realizadas 3 (três) horas após o diagnóstico inicial.
Em 7 (33,3%; 55% [ 14,6-57,0 ] ) encontraram achados compatíveis com embolia pulmonar. Concluíram, os autores, que a flebite superficial de perna não é uma entidade tão benigna como antes considerada, apresentando nesta pequena série de casos um índice de Embolia Pulmonar inexplicavelmente alta.
(Dr. Nilo Izukawa)

Agenda

Eventos nacionais
4º. Curso Teórico e Prático para Diagnóstico e Tratamento de Linfedema
Responsável: Dr. Henrique Jorge Guedes
data: 25 e 26 de março
local: Fortune Residence
tel.: (0__11) 5581-4468 e 5078-7758 (Sinfito-fenafito)

XV Encontro de Angiologia e Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro
data: 19 a 21 de maio
local: Centro de Convenções do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Rio de Janeiro/RJ
tel.: (0__21) 263-1625
fax: (0__21) 263-4884

III Encontro de Angiologia e Cirurgia Vascular
Data: 26 e 27 de maio
Local: Hotel Taiwan - Ribeirão Preto/SP
tel.: (0__11) 279-7626

34o. Congresso Brasileiro de Angiologia e Cirurgia Vascular
de 20 a 25 de outubro de 2000
local: Hotel Intern. Continental Rio - Rio de Janeiro/RJ
tel.: (0__21) 286-2846
fax: (0__21) 537-9134

Evento internacional
19o. Meeting of the International Union of Angiology
data: 05 de maio de 2000
local: Shent - Bélgica
tel.: +32 9 233-8660
fax: +32 9 233-8597
site: www.semico.belangiology
e-mail: angiology@semico.be


Participe:
Você pode mandar artigos e informações sobre cursos e eventos. Faça também suas críticas e sugestões ao novo Boletim Informativo da SBACV - SP. Mande seu e-mail para: camposra@ig.com.br .
Jornalista responsável: Rose Campos - Mtb: 22.000/SP
e-mail redação: rosecampos@hotmail.com.br